Através das diferentes fontes existentes, evidencia-se a importância de buscar os rastros deixados pelo povo cigano, em solo sergipano, no século XIX. Passando assim, a observar este grupo sob outra ótica, e não sob a qual a justiça impunha sobre eles, nos processos criminais. Analizar-se-ão, desta forma, Relatórios de Presidentes de Província com a proposta de estudo da presença cigana em Sergipe entre os anos de 1856 e 1858.
No ano de 1856, na administração de Salvador Correia de Sá e Benevides, a Província sergipana foi devastada por uma epidemia de cólera-morbus que dizimou 15.122 pessoas em todo o estado. Apesar das mortes existentes, o presidente afirmou: “A índole branda dos Sergipanos, seu proverbial respeito ao governo, muito concorrem para se achar firmada em seguras bases a tranqüilidade publica...”, denotando que a Província sergipana é calma, segura e que seu povo é devoto da ordem.
No entanto, a austeridade provinciana se rompe devido à significativa quantidade de gente ociosa, dentre estes, os ciganos. Explica Benevides: “Foi ainda assim, que, por intermédio do subdelegado da Estância, obteve-se a prisão do famigerado cigano de nome Silva e de um seu escravo, indiciados como autores de muitas mortes, e furtos de cavalos”.
Dois anos depois, durante a administração de João Dabney D’Avellar Brotero, constatam-se na Província de Sergipe 67 crimes cometidos, entre os quais: homicídios, tentativas de homicídio, ferimentos e ofensas físicas, roubos, furtos, uso de armas para defesa, ameaças, injúrias, fugas de presos e tiradas de presos do poder da justiça. Em uma população de 132.640 habitantes, tem-se uma média de um crime a cada 2.000 habitantes, números considerados relativamente baixos como pontua Brotero: “O Principio da autoridade é geralmente acatado; a população é dócil, e a parte mais prestigiosa dela é eminentemente ordeira”.
Com isso, nota-se certa proteção aos brios do povo sergipano, algo explicitado na seguinte fala do presidente, quando acusa os ciganos de furtarem cavalos e gado: “Entretanto há um clamor geral contra os furtos freqüentes de gado e animais, maxime animais cavalares. Deve-se acrescentar em honra da população sergipense, que estes furtos em grande numero são cometidos por indivíduos pertencentes às tribos nômades, há que o vulgo da à denominação de ciganos”.
Em, aproximadamente, cem relatórios de presidentes de província analisados, foram encontrados somente dois que citam os ciganos em seus relatos para a Assembléia Provincial. São representados como ladrões de cavalos, o que causa efeito negativo, óbvio, ao denegrir a imagem dos ciganos perante a população. Principalmente, tendo em vista que o grande afetado era o senhor de engenho, que, juntamente com outros grupos sociais, detestavam os ladrões de cavalos, pois era o principal meio de locomoção no Brasil Imperial.
No primeiro relatório, é identificado um cigano proprietário de escravo que era procurado por inúmeros roubos de cavalos e por ter cometido alguns assassinatos. Comprovando que possuir escravo não se restringia somente às classes mais abastadas, pois, tem-se, então, um cigano proprietário de escravo, e este, provavelmente seu cúmplice em uma série de crimes, como os furtos de cavalos - atividade considerada fácil -, roubados dos pastos e comercializados em outras regiões.
O segundo relatório trás como foco principal os constantes furtos de gado e cavalos, esclarecendo para a Assembléia Provincial que tais delitos não eram cometidos por sergipanos, e sim por pessoas nômades, denominadas ciganos. O exposto apresenta dois fatores pertinentes para análise: primeiro fator é a preocupação das autoridades governamentais com o aumento dos roubos de gado e cavalos no estado; o outro é a desconfiança quanto aos nômades, em especial, quanto aos ciganos, deixando implícito que são sempre os culpados pelos furtos. Era bastante comum, por exemplo, que ao estacionarem em determinadas regiões, os ocorridos fossem associados aos ciganos, pois, ladrões se aproveitavam dessas oportunidades para burlar a justiça.
É notória a participação dos ciganos no comércio de cavalos, por serem animais de fácil locomoção, sobretudo para um grupo em constante movimentação; pelos bons preços que ofereciam esta atividade econômica e pela necessidade do mercado em obter estes animais que serviam para o transporte de pessoas e de mercadorias. Desta forma, vinculou-se à imagem do cigano a de “Cigano, ladrão de Cavalos”, o que se verifica em diferentes fontes históricas, assim, o que se criou foi uma representação errônea, já que havia uma generalização e que nem todo animal comercializado por eles era fruto de roubo.
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