Estabelecer uma comparação entre dois gênios da Literatura pode parecer um projeto um tanto audacioso, no entanto o presente artigo visa mostrar a representação dos ciganos nas obras de Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karámazov) e Manuel Antônio de Almeida (Memórias de um Sargento de Milícias), traçando similitudes entre os autores e as obras, proporcionando, assim, uma visão histórica de como o quadro social existente acerca dos ciganos no século XIX fora algo engendrado e perpassado para ícones da literatura desse período, seja na Rússia ou no Brasil.
Ao final dos anos 80 Dostoiévsk publica Os Irmãos Karámazov, desenrolando dilemas da alma humana e vicissitudes da sociedade russa em que foi gerada. A obra se tornou notória entre os críticos literários como o melhor livro do autor. Ao considerar a seguinte frase do escritor russo: “É uma gente ladra e vigarista, são ladrões de cavalo, foram expulsos daqui...” Auebarch afirma existir a necessidade de: “... representar de forma sensível o feio, o repulsivo e o patológico; uma necessidade que ia muito além do que seria objetivamente necessário típico e representativo.”
Desta forma, tem-se uma representação social que explicita uma característica bastante comum em diversas regiões europeias: os ciganos são vistos como ladrões e vigaristas, aqueles em que não se pode confiar, roubam cavalos para comercializar, vivem como sedentários e são indolentes. Uma série de estereótipos que contrariam a lógica da sociedade Russa na qual o trabalho dignifica o homem. Então, aquele estranho à comunidade sempre era visto como um indivíduo inadequado socialmente, por isso era prática comum das elites governamentais expulsarem os ciganos para manter a ordem.
Manuel Antônio de Almeida publica pela primeira vez Memórias de um Sargento de Milícias em 1852, em forma de folhetins semanais no Jornal Correio Mercantil, onde assinava com o pseudônimo de “um brasileiro”. Em 1863, sua obra já desfrutando de certo prestígio, é editada pela segunda vez em livro, quando o autor revela seu nome. De acordo com Roberto Schwarz: “A crítica tem apreciado as Memórias em duas linhas, seja como um herdeiro do romance picaresco, seja como um precursor – devido à fidelidade documentária – do romance realista.”
Como caricaturista de seu tempo, em sua obra, o brasileiro deflagrou uma representação dos ciganos sob a ótica da sociedade em que vivia, trazendo todos os preconceitos existentes em relação a esse povo, elucidando da seguinte maneira: “Com os emigrados de Portugal veio para o Brasil a praga dos ciganos, gente ociosa e de poucos escrúpulos, ganharam eles aqui reputação bem merecida dos mais refinados velhacos: ninguém que tivesse juízo se metia com eles em negócio, porque tinha certeza de levar carolo.”
Muitos ciganos que chegaram ao Brasil vieram degredados de Portugal, já que este desejava se livrar da suposta praga: gente sem caráter, pois roubam, enganam e vivem no ócio, em constantes festas e perambulando pelas diversas regiões do país. Em detrimento das políticas públicas implantadas nos diversos estados, nas quais “cigano bom, era cigano longe”, havia a constante mobilidade do grupo pelo território nacional.
Ambas as obras se caracterizam pela representação social que são elucidadas, proporcionando um realismo maior das relações sociais existentes. Segundo Edward Said: “Muito importante, esses textos podem criar não só conhecimento, mas também a própria realidade que parecem descrever.”. Tornam-se evidentes as semelhanças entre as obras analisadas, pois, representam os ciganos como ladrões, nos quais não se pode confiar, apresentam a ociosidade como um grande defeito deste povo que conforme os autores são desprovidos de boa índole e que freqüentemente são expulsos das cidades. Assegura-se, então, que os ciganos não eram um problema exclusivo da Rússia, ou de qualquer outra região da Europa, mas também do Brasil.